No seu relatório económico intercalar de setembro, a OCDE avisou que o endividamento crescente das empresas tecnológicas para financiar infraestrutura de inteligência artificial, combinado com expectativas de lucros desfasadas da realidade imediata, cria um risco de contágio direto às bolsas e aos mercados de obrigações.

A organização aponta um mecanismo financeiro específico. Se a rentabilidade do software e dos serviços de IA demorar mais tempo a materializar-se do que o ciclo de amortização dos investimentos, uma eventual correção nas avaliações bolsistas deixará de ser apenas uma desvalorização de ações. Passa a encarecer os custos de refinanciamento para todo o setor e ameaça travar o investimento em indústrias adjacentes, com destaque para a construção e operação de centros de dados.

A novidade deste alerta está na localização do risco. Enquanto o debate público se concentrou até agora no custo energético ou nas perturbações no mercado de trabalho, a OCDE coloca o foco na estrutura de capital que sustenta a expansão física da tecnologia. A inteligência artificial deixou de ser puramente software suportado por capital de risco para se tornar uma indústria intensiva em capital, financiada por crédito obrigacionista e dívida corporativa pesada.

Para quem desenha estratégias de infraestrutura digital ou planeia investimentos a longo prazo, esta dinâmica altera os pressupostos de planeamento. A capacidade de computação não vai ficar indefinidamente mais barata por decreto das grandes tecnológicas se as taxas de juro e o custo da dívida começarem a incorporar o risco real de retorno desses ativos.