Portugal pode criar dois a três campeões mundiais de deep tech até 2030. A estimativa consta do Deep Tech Portugal Outlook 2026, que condiciona este cenário à capacidade do país em transformar investigação, talento e infraestruturas em empresas de escala global, assegurando que sedes fiscais, centros de decisão e propriedade intelectual permanecem em território nacional.

O mesmo diagnóstico identifica os pontos de fricção que historicamente travam esta transição: escassez de capital de crescimento para rondas avançadas, morosidade na transferência de tecnologia das universidades para o mercado, défice de perfis técnicos em áreas STEM e uma utilização residual da contratação pública como motor de inovação.

Durante mais de uma década, a métrica de sucesso do ecossistema português assentou no volume bruto de startups fundadas. No entanto, projetos de base científica operam noutro patamar financeiro e temporal: exigem anos de desenvolvimento laboratorial antes da validação comercial e requerem fundos que os veículos de investimento nacionais raramente conseguem suprir a solo.

Quando o capital de risco local esgota o seu fôlego nas fases de aceleração, as empresas nacionais acabam empurradas para investidores estrangeiros que exigem a relocalização da sede e da propriedade intelectual. Sem mecanismos de coinvestimento robustos e compradores públicos que validem estas tecnologias em fase piloto, Portugal continuará a suportar os custos da formação académica e da investigação de base, cedendo a terceiros o retorno fiscal, económico e estratégico do produto acabado.

A transição para a soberania tecnológica não depende de mais incubadoras, mas sim de instrumentos contratuais diretos. A contratação pública pode funcionar como o primeiro cliente destas empresas, substituindo subsídios a fundo perdido por receita comercial previsível.