Um estudo recente da Anthropic revela que, no domínio da pesquisa em ciências sociais, os homens recorrem a agentes de codificação de IA com uma frequência que duplica a das mulheres. Este dado, aparentemente circunscrito, aponta para uma clivagem na adoção de ferramentas que prometem otimizar processos de trabalho, nomeadamente na análise de dados qualitativos e quantitativos.
A corrida para o domínio dos modelos de IA não se joga apenas na sofisticação técnica ou nos benchmarks. Há uma dimensão prática e comercial que se sobrepõe: cada melhoria algorítmica é, em última instância, uma aposta na rotina do utilizador. O verdadeiro "vencedor" pode não ser o modelo mais brilhante em abstrato, mas aquele que conseguir transformar a sua capacidade em hábito antes que o mercado tenha tempo de comparar alternativas.
Esta disparidade na adoção levanta questões pertinentes sobre a equidade no acesso e na literacia de IA. Não se trata apenas de género, mas da forma como as ferramentas de produtividade são introduzidas e integradas em diferentes contextos profissionais. Em Portugal, onde a digitalização e a adoção tecnológica são cruciais para a competitividade, a prioridade não é apenas ter acesso à tecnologia, mas garantir que a sua utilização seja transversal e que não reforce desigualdades preexistentes.
O desafio para decisores e builders não é apenas desenvolver modelos mais potentes, mas entender os use cases reais e as barreiras culturais ou formativas que impedem uma adoção mais equitativa. A questão central passa a ser: como se pode fomentar uma cultura de experimentação e integração de IA que transcenda as demografias e as áreas de especialização, transformando a capacidade tecnológica em valor prático e rotineiro para todos?

