A Igreja Católica em Portugal vai dedicar as suas próximas Jornadas Pastorais à Inteligência Artificial. O encontro anual do Episcopado, agendado para 1 a 3 de julho de 2024, em Fátima, terá como tema central “Inteligência Artificial e Evangelização”.

Este foco não é apenas um sinal de adaptação, mas um reconhecimento de que a IA já não é uma tecnologia marginal. A sua inclusão na agenda de uma instituição com a capilaridade e a influência da Igreja em Portugal sugere que a discussão sobre a IA está a transcender os círculos tecnológicos e empresariais, consolidando-se como um tema de relevância social e ética incontornável. Para decisores e fundadores, isto significa que a adoção e regulação da IA passarão por um escrutínio público mais alargado e multifacetado, onde os valores e as implicações humanas serão tão ou mais debatidos do que a eficiência ou o retorno do investimento.

Sim, e… esta abertura a debater a IA em contextos não-tecnológicos deve ser encarada como uma oportunidade. A discussão sobre ética, propósito e impacto social da IA precisa de vozes diversas. Quando uma instituição como a Igreja portuguesa coloca a IA no centro do seu debate, cria um espaço para contextualizar a tecnologia para públicos mais vastos, que podem estar distantes dos habituais hubs de inovação. Este é o momento para que empresas, startups e reguladores se envolvam proactivamente, partilhando conhecimentos e contribuindo para uma narrativa mais informada e menos polarizada. A alternativa é deixar que a percepção pública da IA seja moldada exclusivamente por debates internos, muitas vezes desfasados da realidade do desenvolvimento e aplicação tecnológica.

O verdadeiro desafio é transformar esta reflexão em ações concretas. Não se trata apenas de compreender a IA, mas de definir como as suas capacidades podem ser alavancadas de forma responsável. Para as empresas portuguesas, a questão é como traduzir este debate cultural em estratégias de compliance, desenvolvimento de produto e comunicação que antecipem as preocupações sociais e éticas. A ausência de um diálogo estruturado com estas vozes emergentes pode levar a regulamentações reativas ou a uma desconfiança pública que trave a inovação. A capacidade de construir pontes entre o desenvolvimento tecnológico e o debate de valores será determinante para o crescimento sustentável da IA em Portugal.