Lisboa acolhe, nos dias 27 e 28 de maio, o seminário "Desinformação na Nova Era Digital", um evento que marca o arranque de um projeto europeu para reforçar a literacia digital. A iniciativa, que abordará os desafios da literacia mediática, coloca um foco particular nos impactos da inteligência artificial.
A centralidade da inteligência artificial não é um pormenor. Numa fase em que a capacidade de gerar e escalar conteúdo sintético se democratiza, a distinção entre "verdade" e "mentira" perde relevância. O problema não reside apenas na desinformação explícita, mas na saturação de informação plausível e contextualizada que dilui a capacidade crítica e a atenção do decisor.
Promover a literacia digital, nestes termos, significa equipar as pessoas não só para identificar fraudes óbvias, mas para navegar num ambiente onde a veracidade é uma questão de escala, não de intenção. A prioridade na comunicação e na informação deixa de ser apenas a emissão para se focar na validação e curadoria. Sem esta mudança de paradigma, qualquer esforço de "combate à desinformação" será uma batalha perdida contra um exército de algoritmos que operam sem fadiga e sem os custos humanos da produção de conteúdo.
Que um projeto europeu comece por Lisboa para discutir a desinformação e a IA é um sinal de que estamos no centro da discussão, mas a prioridade é a ação. Falar de literacia é importante, contudo, a verdadeira questão para decisores e builders é como se passa da discussão para a construção de ferramentas e processos que permitam, de facto, distinguir o que é facto do que é fabricado.
A dependência de seminários para elevar a literacia, sem uma estratégia clara de integração tecnológica e educacional, arrisca-se a ser um ciclo de discussão sem impacto concreto na produtividade ou na competitividade. Se a intenção é travar a desinformação, a pergunta não pode ser apenas sobre o que se ensina, mas sobre o que se constrói para combater a escala da IA generativa. Caso contrário, arriscamo-nos a ter mais debates e menos soluções práticas no terreno.

