A OpenAI terá discutido a cedência de uma participação de 5% ao governo dos Estados Unidos, de acordo com o Financial Times. O relato surge num período de crescente escrutínio sobre as empresas de inteligência artificial em Washington.
Esta discussão ultrapassa a mera regulação ou a aplicação de compliance. A proposta de uma fatia acionista, mesmo que minoritária, sugere uma nova dimensão na relação entre o setor tecnológico e o Estado. Não se trata apenas de supervisionar o desenvolvimento de uma tecnologia disruptiva; é uma apropriação formal de parte do seu futuro, um assento à mesa onde se definem direções e prioridades. Para os decisores europeus e, por extensão, portugueses, isto devia soar um alarme. A capacidade de influenciar, através de uma participação direta, o roteiro de uma das empresas mais estratégicas na área da IA, coloca os Estados Unidos numa posição de vantagem difícil de replicar por outras geografias.
A Europa tem de encontrar as suas próprias vias de influência ativa, seja através de mecanismos de investimento estratégico que incentivem a inovação local, seja pela criação de um framework regulatório que, em vez de apenas conter, impulsione o crescimento e a adoção de tecnologia. Esperar que as grandes empresas de IA se alinhem com os valores europeus sem um incentivo ou participação direta é uma estratégia passiva. A questão não é se o controlo governamental da IA é bom ou mau, mas sim como se garante a soberania e a competitividade tecnológica num mundo onde os grandes atores já estão a desenhar as suas próprias regras de jogo. O que fará a Europa para ter o seu próprio assento, não apenas como regulador, mas como acionista do futuro?

