Quase metade dos alunos portugueses (48%) utiliza chatbots para apoiar os estudos pelo menos uma vez por semana, um valor acima da média da OCDE. O dado surge a par dos resultados do PISA 2025, que registaram uma nova quebra de desempenho em Matemática e Leitura em Portugal, recuando para níveis inferiores aos do início dos anos 2000. O contraste levou Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, a alertar para os efeitos da inteligência artificial nas salas de aula.
A correlação direta entre o uso de software e a perda de competências básicas exige cautela estatística, mas expõe uma fratura operacional no sistema de ensino. Ter metade dos estudantes a recorrer a modelos de linguagem sem qualquer enquadramento curricular significa que a tecnologia entrou pelo atalho da resolução de tarefas, não pela consolidação de raciocínio.
Quando um aluno recorre a um chatbot para obter respostas imediatas sem passar pelo atrito cognitivo do cálculo ou da interpretação de texto, a ferramenta substitui a aprendizagem em vez de a acelerar. O problema não reside no acesso à tecnologia, reside na incapacidade do modelo pedagógico em avaliar o processo em detrimento do produto final entregue.
Se o ensino continuar a medir o sucesso através de trabalhos suscetíveis de automatização passiva, o fosso entre a facilidade aparente e a capacidade analítica real vai continuar a alargar-se. O desafio imediato das políticas educativas passa por redesenhar os critérios de avaliação: penalizar a delegação cega e incorporar a verificação crítica da ferramenta antes que o défice de competências básicas comprometa a futura base produtiva do país.

